O senhor Joaquim nasceu numa aldeia escondida no vale de um ribeiro em Terras de Bastos, no interior do verde Minho. Nasceu pobre, cresceu na miséria, conheceu a fome e fugiu disto tudo e da guerra, a salto, para a França. Na altura teria aproximadamente uns dezanove anos, nunca soube bem quando nasceu, tinha sido registado pelo avô já com ano e meio, voltou com quarenta no bilhete de identidade em meados de mil novecentos e oitenta e sete e alugou uma casita paredes meias com um armazém num fundo de um quintal de uma ilha na zona oriental do Porto.

Quem passava por aqueles lados não imaginava o mundo por detrás das fachadas, mal cuidadas, com telhados abatidos pelo cansaço das traves de madeiras pouco nobres. De um lado existia uma porta de alumínio que contrastava com a traça de engenheiro, vulgar nos anos que se seguiram à Segunda Grande Guerra quando se rasgaram aquelas ruas e ruelas para que a cidade crescesse, do outro um portão também de metal, talvez de ferro, um pouco oxidado e no meio uma janela de cantaria com demasiada arte para aquele tipo construção. Subiam-se dois degraus até à porta de alumínio que aberta escondia um velho quadro elétrico cinzento do pó com uma alavanca a lembrar os filmes mudos e enormes fusíveis de louça entre os quais uma ou outra destemida aranha fazia a teia. O chão era de cimento com sulcos desenhando quadrados como nos passeios, mas a rua não tinha passeios era estreita e sinuosa, fazia uma perpendicular, ao cimo, com uma rua mais movimentada com carros estacionados de um dos lados e dois sentidos de circulação esta sim tinha passeios, a outra, a de baixo, era também estreita de empedrado irregular e tal como a de cima terminavam numa paralela à rua da ilha, uma avenida recente, uma obra em grande, com cartazes a anunciar quanto se gastará, que ficou parada mais adiante entre os escombros do que foi abaixo e os materiais que não se utilizaram.

Fechando a porta tinha-se pela frente um corredor escuro com uma luz difusa no fundo, subiam-se mais dois degraus agora de madeira e prosseguia-se sobre o soalho, do lado esquerdo uma parede acabada a gesso com enormes buracos onde se deslumbravam magníficas pedras de granito, do lado direito as divisões de uma casa dimensionada para uma família numerosa e agora transformada em várias. Nas duas divisões da frente, outrora sala de receber e saleta, vivia agora a dona Glória e o seu filho, o marido havia partido para França a fim de tratar das condições para instalar a família mas nunca mais voltou, dizia-se que tinha ficado por Espanha mas na verdade ninguém sabia, sabia-se apenas que nunca mais voltou. Mais duas famílias viviam nas divisões seguintes, no fim do corredor do lado direito um anexo onde fizeram uma cozinha e um quarto de banho do lado esquerdo outros dois quartos de banho e mais um anexo onde a dona Glória fazia cozinha era aliás a dona Glória a que pior estava com a casa dividida em dois, mas por outro lado, era a única que tinha uma janela para a ruela onde meditava, a afagar o gato, encaixilhada pela estupenda moldura de cantaria como se de um quadro se tratasse. Entre os anexos uma cobertura de plástico esverdeado protegia da chuva e cortava a luz dando aquele efeito, que se vislumbrava no início do corredor, de uma luz difusa ao fundo. O eco que o ranger do soalho fazia era o único som que ali se ouvia, todos eram muito cientes da necessidade de privacidade, se não houvesse discussão, mas terminado o corredor e ultrapassado o coberto explodia o sol, estridente, ferindo os olhos em cinestésicas imagens de coloridas formas geométricas até que, após a necessária adaptação à luz, surgiam os quintais que preenchiam todo o centro do quarteirão rodeado de casas na estrema.

Os muros que dividiam os quintais eram baixos favorecendo as relações de vizinhança neste mundo que era uma ilha no meio da cidade. Havia árvores de fruto, legumes e leguminosas, flores, pequenos relvados, arbustos, galinheiros, gatos errantes e cães que os perseguiam mas só se algum humano estivesse a ver. Ao fundo do quintal a casa do senhor Joaquim parecia combinar toda a sua vivência, uma ramada de uvas Americanas cobria um avançado em chapas de zinco e de plástico, na frente um feijoeiro trepava por onde podia, entrava-se por uma cancela de rede para um pátio interior, á sombra da vide, que dava para o armazém do senhorio e a pequena casa onde o senhor Joaquim vivia, parecia que o bidonville onde vivera nos arredores de Paris tinha vindo parar ao verde vale onde crescera, mas não tudo isto existia na zona oriental do Porto em meados de mil novecentos e oitenta e sete.

 

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Apetece-me falar dos livros que mais recentemente tenho lido, no entanto, não poderei fazer esse encaixe na narrativa que tenho vindo a desenvolver sem antes fazer referência aos livros que na altura lia e com isso fechar, talvez, a fase que caracterizou esses primeiros dois ou três anos de experimental vivência poética.

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“Temei homens de um só livro”  S. Tomás de Aquino (julgo eu)

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Na verdade andava de tal forma alienado, alheado, perdido nos confins da percepção consciente que não tive o discernimento lógico, racional de aprender, conhecer, ler livros… de poesia naturalmente, ainda assim nesses primeiros dois ou três anos tropecei numa dúzia deles dos quais aliás sobram apenas uns poucos e relembro outros tantos.

Na estante lá de casa havia um livro de Guerra Junqueiro “A Velhice do Padre Eterno”, julgo ter sido esse o primeiro livro de poemas que li na totalidade, em um alfarrabista comprei os sonetos completos de Antero de Quental e uma compilação de canções e poemas de Zeca Afonso, numa feira do livro um de Joaquim Pessoa do qual já não recordo o nome e que não sei já onde pára assim como os sonetos de Flor Bela Espanca e o Jornal de Letras do qual me tornei para estranheza de quase todos um adepto durante alguns poucos anos. Mais tarde acrescentei mais uns poucos, mas foram sempre poucos, aí até os vinte e um, vinte e dois anos período em que digamos assim começou uma nova fase, mas isso é uma história para contar muito mais adiante, se tal vier a propósito, não era pois um jovem de um só livro, mas sim de uma meia dúzia.

Como não há coincidências, visto que estamos a falar de livros, a tal meia dúzia foi escolhida por mim mas também me escolheu, estes autores que referi são todos obviamente geniais mas também, cada um da sua forma, existencialistas. A vida, a morte, o amor e a paixão são temas universais mas se os procurarmos racionalizar, encontrar propósito, porquês, quer através da reflexão mais ou menos filosófica ou do estudo crítico das religiões e da antropologia cultural humanas, somos quase inevitavelmente levados a uma estética, que era já a minha em grande parte, existencialista. Estética essa aliás que com tais leituras se acentuou e resultou em poemas como estes;

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É um mistério para mim

que requer sabedoria

para levar até ao fim

e acabar com a agonia,

passo os dias a pensar

sem a resposta descobrir

estive quase a acabar

acabar por desistir …

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Por um lado sofridos e por outro melancólicos e desesperados, na realidade nenhuma das minhas reflexões, poemas ou leituras me levava a conhecimento algum;

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Lanço o laço

sobre o braço

do madeiro

assaz propício,

que a vida

pede já clemência

e a morte …

assim,  em evidência …

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A coisa mais tarde melhorou, mas entretanto, esta estética pseudo-gótica, neo-romântica ou o que lhe quiserem chamar, mas bem negra, despertou o interesse de um grupo de miúdos lá do liceu que na altura tentavam formar uma banda … “Cruzes Credo” ou “Cruzes Canhoto” já não sei bem, já lá vão vinte anos e estes eram nomes de bandas alternativas de garagem do género “Mão Morta”, tudo nomes sugestivos, embora esta tivesse uma estética mais New Wave … e os miúdos tinham instrumentos e tudo, eram de famílias classe média alta com recursos só não sabiam tocar, pormenor com pouca importância na adolescência … ainda escrevi duas ou três letras para a tal banda;

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Vagueio na noite

de um breu normal

procuro uma alma virgem

sou um escravo do mal.

Laços de amor, ligações fatais …

E assim que possa vou ser

e assim que possa serei

já não mais se pode crer

crer em mais ninguém …

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Reprovamos todos … eles foram para um externato, eu depois de repetir o ano fui trabalhar … nunca mais vi nenhum deles;

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Senhora porque vos vais

não vos dou tudo o que queres

senhora vós que sois

a mais bela das mulheres,

senhora eu vos amo

senhora eu vos desejo

senhora eu vos reclamo

senhora dai-me um beijo.

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Nunca me haveis dado um beijo

nunca vos o havia pedido

não escondo o meu desejo

que em mim trago contido,

senhora eu vos amo

senhora eu vos desejo

senhora eu vos reclamo

senhora dai-me um beijo.

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No entanto, e apesar de tudo, não deixava de ser um rapaz … vá … relativamente normal, recordo um pequeno poema que escrevi no rescaldo de um redundante NÃO(!) …

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Morri …

morri de amores

… ela não me queria …

não me deu os seus favores

e eu morri …

… mas ressuscitei ao terceiro dia.

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Após ter rasgado várias tentativas e abandonado muitas ideias, (algumas mais tarde revisitadas com outros olhos e olhares, de outras perspectivas e com outros enquadramentos) o primeiro poema, tentava descrever o momento exacto em que um ser humano … enfim, mais propriamente um pré adolescente, se apaixonava conscientemente. O preciso instante em que descobria … isto é, sentia a paixão pela primeira vez.

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Uma forca que enforca

fica farta de enforcar

uma forte e fria forca

enforcou-me, tirou-me o ar

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já sem ar, quase enforcado

consegui ainda respirar

fiquei frio, congelado

tive medo … de amar.

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O sibilar do efe pretendia aludir ao som do ar em movimento e com o objectivo de criar um ambiente que leva-se a um melhor entendimento daquilo que efectivamente desejava dizer tentei criar, como que um épico desfecho que levasse á revelação da verdadeira questão, ou seja “ tive medo“, medo do que se seguisse, medo de amar.

Amar pode ser assustador para um pré adolescente com a soturna, talvez romântica, ideia de que uma forca poderia ser um bom exemplo para descrever a aflição, a angústia de experimentar pela primeira vez um sentimento ainda mal entendido (sentido), a paixão.

Da paixão para o amor foram alguns poemas mas recordo um, que foi escrito com destino.

Destino esse, alias, que teve varias oportunidades, na verdade foi escrito para uma minha admiração mas, mais tarde, foi reaproveitado em diversas outras conquistas de amigos e também este fez algum sucesso … vá-se lá saber porquê …

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Doce,

numa palavra

tudo fica dito …

E deixo o dito

pelo dito, porque tu

assim o és … Doce.

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Muitos outros vieram, alguns perdidos outros na gaveta, á medida que os for desenterrando sobre eles falarei, mas, não posso terminar sem referir o primeiro que dediquei há minha mulher, na altura coleguinha do complementar nocturno que mal conhecia e a quem carinhosamente chamava de gata borralheira, não sei bem porquê mas imaginava-a de volta dos borralhos de uma acolhedora lareira … só passados uns dez anos nos voltamos a encontrar.

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Amor é

embora possa não o ser,

podes senti-lo

só não o podes ver.

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É frio no calor dos trópicos

e alegria de viver,

na verdade podes senti-lo

ainda que não possas ver.

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Não é o melhor que lhe dediquei, não foi sequer revisto escrevi-o na capa solta do livro de Filosofia que partilhávamos na ocasião, de uma vez sem reflexão mas foi o primeiro.

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